usar a loja de uma quadra inteira apenas como passagem para a próxima rua. ir ao shopping somente pelo banheiro (e os vasos sanitários mais limpinhos que se pode imaginar, fora o constrangimento do segurança, da câmara de vigilância, das luzes e das ofertas). ler livros inteiros dentro das grandes livrarias sem levá-los consigo para casa (pelo menos passando pelo caixa).
sempre me deu uma sensação engraçada essa dos espaços público-privados. a que se restringe o acesso? todos os vetores energéticos, toda a exposição, vai na direção do consumo. é o que lhes interessa. e alguém com experiência me diz que de cada vendedor é medido o volume de compras (tanto em quantidade de ítens como em valores) para cada cliente. quem vende mais ganha prêmios.
não é novidade alguma dizer que a declaração desses espaços como "espaços públicos" é um engôdo. (os caras do critical art ensemble falam das casamatas.) portanto, nos interessa o saudável exercício de esfregar nosso alegado direito em suas caras (sem ser capturado no processo). abusar de tudo que for uma facilidade para o consumidor sem se tornar um.
em toda cidade que eu chego para passar um tempo, entro no processo (como um bom nômade urbano) de mapear os melhores banheiros das regiões por onde fico com minha casa nas costas (vale dizer, mochila). sempre achei interessante a prática de sentar em uma mesa de shopping com alguns amigos, puxar um baralho de cartas e fazer um lanche só com coisas trazidas de casa.
as possibilidades são infinitas. tenho a imagem de que entrar em um espaço público-privado é como mergulhar em uma célula de líquido amniótico. o desafio é fazer isso sem se molhar. ainda há aqueles que o fazem e levam consigo algum troféu, como quem enfia a mão na célula e de lá retira uma parte para deixar secar. os pequenos roubos são uma forma deliciosa de publicizar o privado que tenta te engolir (no final das contas, toda a intenção desses espaços é a fagocitose, é coisificar seus visitantes, fazê-los jogar o jogo do consumo, tentá-los, privatizá-los). só que aí, o risco não é só subjetivo...
tome cuidado. lembre-se de Hakim Bey (aliás, vocês já viram Edukators?), não seja pego. e, especialmente e como sempre... divirta-se! quem foi mesmo que disse que "em meu país, sorrir é um ato revolucionário?"? pois então, meus queridos... gargalhem! (e molhem alguém com seus perdigotos...)
1 de março de 2005
26 de fevereiro de 2005
VERSÃO UM
Boresteano sacana
Escárnio, sossego.
Ao levantar da sobrancelha vejo
Indagação que reclama
Desliza certeza!
Afoga, sujeito!
Depois so rra tei ra men te...
Mente!
Mente vadia e sem compromisso
Amarra frouxa perdida no fio
Da meada irônica
Linha do destino
De versão em versão
Eis universo Inversão.
E o inverso dele
Não inventa nada
Apenas vira vírgula
Inverte rima
Invisível o verso,
Já perdeu a firma
Mas se duvido do que afirmas
Prontamente cartografa
Possibilidade de outras ilhas
Na deriva dessa dúvida
Investida de outras idas...
Escárnio, sossego.
Ao levantar da sobrancelha vejo
Indagação que reclama
Desliza certeza!
Afoga, sujeito!
Depois so rra tei ra men te...
Mente!
Mente vadia e sem compromisso
Amarra frouxa perdida no fio
Da meada irônica
Linha do destino
De versão em versão
Eis universo Inversão.
E o inverso dele
Não inventa nada
Apenas vira vírgula
Inverte rima
Invisível o verso,
Já perdeu a firma
Mas se duvido do que afirmas
Prontamente cartografa
Possibilidade de outras ilhas
Na deriva dessa dúvida
Investida de outras idas...
19 de fevereiro de 2005
subversão de verão (ou faça bom uso da classe média)
Um pequeno golpe de utilização do sistema. Será necessário um carro com seguro, e uma peça desse carro que esteja estragada. Sugiro o distribuidor das velas, que, se muito oxigenados (como pelo efeito da maresia), não permitem que a corrente elétrica passe - o carro não se mantém ligado.
Parta para uma viagem e divirta-se. Na hora de voltar, troque a peça boa pela estragada e então acione o seguro. O guincho vem e aí, ao invés de ir até uma oficina resolver o problema, peça que o leve para sua casa. Na sua cidade. É assim, o seguro tem que levá-lo para casa, e eles oferecem um taxi para tanto. Se o taxi não for acionado, o guincho pode levá-lo - e aí a distância possível é muito maior.
Tudo no golpe há de ser verificado. Consulte a seguradora quanto aos detalhes, e veja bem se a peça trocada não funciona mesmo, ou se a fraude não fica muito evidente. A utilização da técnica fica intreiramente a seu cargo, sua excelência depende do seu jogo de cintura. Seja autônomo e criativo. Lembre-se também que o guincho pode levar duas pessoas na cabine, e que legalmente não se pode transportar passageiros dentro do veículo rebocado - mas sei por fato que alguns guincheiros fazem isso, o que permite que você esteja acompanhado de gente suficiente para valer a pena viajar de carro (duas pessoas pagando gasolina e pedágios em um carro moderadamente econômico sai o mesmo custo das passagens de ônibus - tudo anda muito caro, não é?).
A viagem de guincho é demorada, então leve isso em conta. Colchonetes nos vãos dos bancos deitados do carro fazem uma grande cama, e o fato de que esse espaço está para trás do motorista possibilidade o uso de toda gama de entorpecentes e carteados, que tornam sua viagem mais interessante. Sempre pensei assim, se o caminho é longo, o tempo é elástico e podemos alterá-lo. Novamente, divirta-se. Essa é toda a intenção.
Parta para uma viagem e divirta-se. Na hora de voltar, troque a peça boa pela estragada e então acione o seguro. O guincho vem e aí, ao invés de ir até uma oficina resolver o problema, peça que o leve para sua casa. Na sua cidade. É assim, o seguro tem que levá-lo para casa, e eles oferecem um taxi para tanto. Se o taxi não for acionado, o guincho pode levá-lo - e aí a distância possível é muito maior.
Tudo no golpe há de ser verificado. Consulte a seguradora quanto aos detalhes, e veja bem se a peça trocada não funciona mesmo, ou se a fraude não fica muito evidente. A utilização da técnica fica intreiramente a seu cargo, sua excelência depende do seu jogo de cintura. Seja autônomo e criativo. Lembre-se também que o guincho pode levar duas pessoas na cabine, e que legalmente não se pode transportar passageiros dentro do veículo rebocado - mas sei por fato que alguns guincheiros fazem isso, o que permite que você esteja acompanhado de gente suficiente para valer a pena viajar de carro (duas pessoas pagando gasolina e pedágios em um carro moderadamente econômico sai o mesmo custo das passagens de ônibus - tudo anda muito caro, não é?).
A viagem de guincho é demorada, então leve isso em conta. Colchonetes nos vãos dos bancos deitados do carro fazem uma grande cama, e o fato de que esse espaço está para trás do motorista possibilidade o uso de toda gama de entorpecentes e carteados, que tornam sua viagem mais interessante. Sempre pensei assim, se o caminho é longo, o tempo é elástico e podemos alterá-lo. Novamente, divirta-se. Essa é toda a intenção.
20 de dezembro de 2004
Ação Global
Vamos para todos os
lados
para que não haja lados
tanto quanto há direções
Vamos para todos os lados
para que sejamos mais
do que somos
do que podemos ser
Por entender a vida como
algo ilimitável
Vamos para todos os
lados
Para que existam
lugares
aonde se possa chegar
lados
para que não haja lados
tanto quanto há direções
Vamos para todos os lados
para que sejamos mais
do que somos
do que podemos ser
Por entender a vida como
algo ilimitável
Vamos para todos os
lados
Para que existam
lugares
aonde se possa chegar
16 de dezembro de 2004
desaparições
me é comum pensar no desaparecimento como uma forma de ação política, uma possibilidade de intervenção, ou uma tática que possibilita a intervenção. creio que em mais de um livro da Baderna isso aparece, uma forma de agir, o desaparecer como a ação dos homens sem-rosto (e por aí vão Luther Blisset & Wu Ming, e até mesmo os zapatistas). mas aí me deparei com o Galeano, no seu triste e belo livro "Dias e Noites de Amor e de Guerra"... e aí me dei conta, com um frio na barriga, dor no coração, arrepio nas costas, que há outros desapareceres, e que cabe termos idéia deles, pensarmos neles, quando estamos exercendo nossa artepolítica cotidiana... em verde, as palavras são minhas, metidas pensadoras remetidas ao texto:
"Nas câmaras de tormento, os torturadores almoçam na frente de suas vítimas. [lembra a vocês os belos jantares em restaurantes envidraçados?] As crianças são interrogadas sobre o paradeiro de seus pais; os pais, pendurados e eletrocutados para que digam onde estão seus filhos. [a TV faz da possibilidade do ato um crime; a vigia hoje me parece mais subjetiva, sutil, e na aparente repressão reduzida está um peso incômodo. falta companheirismo nas famílias, falta um compartilhar, sobra o medo do risco do moderno, de todas essas coisas que ameaçam nas novelas e jornais. uma certa paranóia cultural de substância e explicidade diferentes] Noticiário de cada dia: "Indivíduos vestidos de civil com os rostos cobertos por máscaras negras... Chegaram em quatro automóveis Ford Falcon [N. do T.: Veículo utilizado pela polícia civil na Argentina]... Todos estavam fortemente armados, com pistolas, metralhadoras e carabinas... Os primeiros policiais chegaram uma hora depois da matança". [fico pensando que a mídia nem chega tão perto hoje em dia...] Os presos, arrancados das prisões, morrem na lei da fuga ou em batalhas onde não há feridos nem baixas do lado do exército. Humor negro de Buenos Aires: "Os argentinos", dizem, "estamos divididos em enterrados e desterrados". A pena de morte foi incorporada ao Código Penal em meados de 1976; mas no país se mata todos os dias sem processo ou sentença. Em sua maioria, são mortos sem cadáver. [e mortos de fome, de frio, de abandono...] A ditadura chilena não demorou em imitar esse procedimento bem sucedido. Um único fuzilado pode desencadear um escândalo mundial: para milhares de desaparecidos, sempre resta o benefício da dúvida. [quando o poder ficou menos pontual e mais nômade, globalizado, essa possibilidade de escândalo mundial reduziu em muito; ainda há os clamores internacionais que geram resultados - os zapatistas tiveram sua guerra aliviada em muito com a visibilidade que alcançaram, o apoio de fora de seu país -, mas ele é um tanto mais difícil quando absorvido pelos meios normais de denúncias, pela burocracia, e pela mídia institucionalizada, marionete.] Como na Guatemala, parentes e amigos realizam a perigosa peregrinação inútil, de prisão em prisão, de quartel em quartel, enquanto os corpos apodrecem nos baldios e nos depósitos de lixo. Técnica das desaparições: não há presos que reclamar nem mártires que velar. Os homens, a terra engole; e o governo lava as mãos: não há crimes que denunciar nem explicações para dar. Cada morto morre várias vezes e no final só resta, na alma, uma névoa de horror e incerteza." [a hegemonia me parece menos forçada hoje; o poder, não sendo mais tão claro, aproxima-se do poder cultural: é o poder da subjetivação. não há presos a reclamar porque está claro para todos que, se está preso, por mais injusto que isso sinta, é o jeito que as coisas são, justiça clara. medo do caos? estamos entregues...]
"Nas câmaras de tormento, os torturadores almoçam na frente de suas vítimas. [lembra a vocês os belos jantares em restaurantes envidraçados?] As crianças são interrogadas sobre o paradeiro de seus pais; os pais, pendurados e eletrocutados para que digam onde estão seus filhos. [a TV faz da possibilidade do ato um crime; a vigia hoje me parece mais subjetiva, sutil, e na aparente repressão reduzida está um peso incômodo. falta companheirismo nas famílias, falta um compartilhar, sobra o medo do risco do moderno, de todas essas coisas que ameaçam nas novelas e jornais. uma certa paranóia cultural de substância e explicidade diferentes] Noticiário de cada dia: "Indivíduos vestidos de civil com os rostos cobertos por máscaras negras... Chegaram em quatro automóveis Ford Falcon [N. do T.: Veículo utilizado pela polícia civil na Argentina]... Todos estavam fortemente armados, com pistolas, metralhadoras e carabinas... Os primeiros policiais chegaram uma hora depois da matança". [fico pensando que a mídia nem chega tão perto hoje em dia...] Os presos, arrancados das prisões, morrem na lei da fuga ou em batalhas onde não há feridos nem baixas do lado do exército. Humor negro de Buenos Aires: "Os argentinos", dizem, "estamos divididos em enterrados e desterrados". A pena de morte foi incorporada ao Código Penal em meados de 1976; mas no país se mata todos os dias sem processo ou sentença. Em sua maioria, são mortos sem cadáver. [e mortos de fome, de frio, de abandono...] A ditadura chilena não demorou em imitar esse procedimento bem sucedido. Um único fuzilado pode desencadear um escândalo mundial: para milhares de desaparecidos, sempre resta o benefício da dúvida. [quando o poder ficou menos pontual e mais nômade, globalizado, essa possibilidade de escândalo mundial reduziu em muito; ainda há os clamores internacionais que geram resultados - os zapatistas tiveram sua guerra aliviada em muito com a visibilidade que alcançaram, o apoio de fora de seu país -, mas ele é um tanto mais difícil quando absorvido pelos meios normais de denúncias, pela burocracia, e pela mídia institucionalizada, marionete.] Como na Guatemala, parentes e amigos realizam a perigosa peregrinação inútil, de prisão em prisão, de quartel em quartel, enquanto os corpos apodrecem nos baldios e nos depósitos de lixo. Técnica das desaparições: não há presos que reclamar nem mártires que velar. Os homens, a terra engole; e o governo lava as mãos: não há crimes que denunciar nem explicações para dar. Cada morto morre várias vezes e no final só resta, na alma, uma névoa de horror e incerteza." [a hegemonia me parece menos forçada hoje; o poder, não sendo mais tão claro, aproxima-se do poder cultural: é o poder da subjetivação. não há presos a reclamar porque está claro para todos que, se está preso, por mais injusto que isso sinta, é o jeito que as coisas são, justiça clara. medo do caos? estamos entregues...]
7 de dezembro de 2004
cotidiano
- Sinto uma angústia terrível cada vez que mato um mosquito...
- Por que você não pára de fazer isso, então?
- Ué? Me disseram que é o correto!
- Por que você não pára de fazer isso, então?
- Ué? Me disseram que é o correto!
9 de novembro de 2004
Amor Louco (AL)
Na falta de inspiração ou tempo, resolvi reproduzir aqui um dos textos - mais - lindos do Hakim Bey e que não encontrei em português na íntegra na Internet ainda... (Retratando...) Só pra fazer um link, nesse texto ele me dá a forte e gostosa impressão de misturar seu anarquismo ontológico com Osho com Roberto Freire com Reich... enfim, deliciosos gozos libertários...
O AMOR LOUCO NÃO É uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo - seu Livro & Emblemas treme em suas mãos.
Naturalmente, ele caga para os professores & para a polícia, mas também despreza os liberais & os ideólogos - não é um quarto limpo & bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores & seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos & vermelhos maníacos membranosos.
Cada um de nós possui metade do mapa - como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos - as fronteiras imaginárias de nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.
O anarquismo ontológico nunca retornou de sua última viagem de pesca. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente - seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.
Seu único interesse pela Família está na possibilidade do incesto ("Amplie o seu Eu!", "toda pessoa é um Faraó!") - Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - & na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.
As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até que alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo - a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, & nisso foram seguidores de Sade (que queria "liberdade" apenas para que homens brancos & adultos pudessem estripar mulheres & crianças).
O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissário ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.
O amor louco pede uma sexualidade incomum, da mesma forma que a feitiçaria exige uma consciência incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade & divide-se entre multidões conflitante: caretas histéricos versus donas promíscuas & ex-ex-solteiros. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.
O AL gostaria de ver todo bastardo ("filho natural") chegar no fim de sua gestão & nascer - o AL vive de aparelhos antientrópicos - o AL adora ser molestado por crianças - o AL é melhor que preces, melhor que sensimilla - o AL leva para onde for suas próprias palmeiras & sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Laila & Majnun, o cheiro de pólvora & de esperma.
O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros - sempre embriagado no vinho de suas próprias secreções ou de fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose - não é o resultado da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.
O AMOR LOUCO NÃO É uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo - seu Livro & Emblemas treme em suas mãos.
Naturalmente, ele caga para os professores & para a polícia, mas também despreza os liberais & os ideólogos - não é um quarto limpo & bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores & seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos & vermelhos maníacos membranosos.
Cada um de nós possui metade do mapa - como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos - as fronteiras imaginárias de nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.
O anarquismo ontológico nunca retornou de sua última viagem de pesca. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente - seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.
Seu único interesse pela Família está na possibilidade do incesto ("Amplie o seu Eu!", "toda pessoa é um Faraó!") - Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - & na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.
As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até que alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo - a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, & nisso foram seguidores de Sade (que queria "liberdade" apenas para que homens brancos & adultos pudessem estripar mulheres & crianças).
O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissário ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.
O amor louco pede uma sexualidade incomum, da mesma forma que a feitiçaria exige uma consciência incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade & divide-se entre multidões conflitante: caretas histéricos versus donas promíscuas & ex-ex-solteiros. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.
O AL gostaria de ver todo bastardo ("filho natural") chegar no fim de sua gestão & nascer - o AL vive de aparelhos antientrópicos - o AL adora ser molestado por crianças - o AL é melhor que preces, melhor que sensimilla - o AL leva para onde for suas próprias palmeiras & sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Laila & Majnun, o cheiro de pólvora & de esperma.
O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros - sempre embriagado no vinho de suas próprias secreções ou de fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose - não é o resultado da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.
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