12 de junho de 2006

Ontem uma menina linda pulava toda molhada o final das ondas do mar com todos os seus nove anos de idade e de braços pra frente contra o corpo e mãos dadas a si mesma que já se ia o Sol e fazia um certo frio pro Rio e pra alguém que pinga. E eu caminhava na areia. Aí ela virou pra mim com todos os seus dois olhos castanhos e me perguntou doce e sinceramente Sabe me dizer se tem tubarões por aqui? e eu, profundamente tocado, respondi com um sorriso muito sério e realmente Não, não tem não e ela me disse Muito obrigada!.

Me apaixonei. Espero que ela leve seus nove anos pra sempre!

9 de junho de 2006

Esperar, Meditar, Pensar

É impressionante como consegui internalizar e reproduzir alucinatoriamente o som de mensagem do meu celular. A espera do inusitado imaginado ou não imaginado faz a gente bem estranho. E a espera é oposta ao acontecimento, completamente, como já me ensinou a muito tempo a Gi. É como se, imaginando, a gente já vivesse e não precisasse mais; como se a energia se gastasse. Nada impecável.

Aprendi a meditar. Uma nova amiga muito querida me ensinou uma palavra mágica. O começo foi mais fácil, acho que a surpresa da prática pegou meu racional direitinho, agora já está mais difícil de novo e eu sinto uma angústia desconfortável às vezes. Acho que é meu Eu agonizando. Das melhores vezes senti a palavra-mantra como uma chave pra rasgar o véu que me rodeia. É lindo e seguirei tentando. Quem sabe eu volto voando pra Porto Alegre, ou então medito contemplando um rio e deixo ele me levar.

Aliás, que saudades de contemplar! Ando precisando de natureza me abraçando de tudo quanto é lado. E ficar lá escutando o que as coisas dizem.

Mas estou mais tranquilo. Aprendendo a aceitar o Destino. Tô conseguindo pensar assim, no Destino, e é bonito, porque não vem de uma forma tão determinista quanto aquilo de já está tudo definido não. Não sei explicar... É como abraçar e deixar-se levar menos queixosamente pelos acontecimentos...

Ainda tô aprendendo a ser humano. Depois vou ver se aprendo a ser outra coisa. Ou talvez esses aprendizados aconteçam ao mesmo tempo. Heheheheh...

E a saudade é dor pungente, morena.

Beijo!

PS: O título se refere ao que um Samana sabe fazer, de acordo com Sidarta, do Herman Hesse. Leia que vale a pena!

7 de junho de 2006

Conquista

A escolha, amor
de uma saia justa
que mostre teus belos joelhos
e componha desde teu jogo de coxas
os seios
brandos
através discreto
do decote
irresistível
É a escolha, amor
- pra além da saia,
das coxas -
essa escolha pela saia justa
que se exprime no teu rosto
sem igual
no teu olhar de silenciar
o Carnaval em uma ola
de queixos caídos
A escolha
não a saia
que me leva pra cama
e me espalha

6 de junho de 2006

Sábado

Da multidão de uma promessa
de festa
fiquei em casa solitário
mesmo que acompanhado
pensando na cachaça doutro dia
no vinho da galadeira
enquanto tomava cerveja
com um único cigarro
a noite inteira

Me vi lendo
e não sei se me abria
ou o quê
até que fui parar em voz alta

A poesia me faz companhia
Gosto mais de mim
quando escrevo

5 de junho de 2006

Das minhas primeiras palavras, e as de sempre

Demorei-me a iniciar no campo da fala. Minha mãe conta que o elevador lotava de simpatias dos vizinhos a solucionar o problema. Enquanto a família apressava o alcanço de cada objeto que caía sob meus olhares (e me disseram, de dentro dum azul-brilhante sem igual, que eles dizem muito - gostei): primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho, bisneto, sobrinho-neto, primeiro entre tantos de uma geração anterior: pareci primo de minhas tias, e pareço tio do meu primo.

Domingo da semana passada um desses bêbados eloqüentes que assolam os bares do Rio de Janeiro falou sobre a preocupação que minha testa teima em anunciar (esse era um bêbado sensível e metido a vidente). Você é novo demais pra tanta preocupação. Isso não tem idade, mas ele tem razão. Escolhi pais novos para ser velho. Bem coisa de criança - e mimada.

Quando finalmente falei, saiu um polido primeiro discurso. A polidez e os discursos vem comigo desde então - às vezes sou bom com as palavras, às vezes elas não me deixam em paz. Ela me disse que tenho sangue azul. Sei que falo pra dentro.

Quando ressôo, saio imponente. Já deram a entender que carrego certa brutalidade. É verdade, mas o bruto é dissonante por excelência. Quando ressôo, é pro fundo de alguém. E os corações falam por batidas.

2 de junho de 2006

Não cabe nessa vida morrer de sede no meio do oceano. Desidratado parece por demais com destratado.

Amorceano

Ficamos como mar
a jogar barco pra lá
e pra cá
num teatro mesquinho
e improvável
de naufrágio
A importância aparente
era fazer do casco peixe
e mesmo que inevitável
sinto que perdemos o gozo
dos ventos
gaivotas
serenos
sereias
núvens
até o gozo das ondas

Nos restou o bote salva-vidas
a bóia
e ainda uma luta de diferenças
de superfícies
de navegabilidade e sobrevivência
Uma luta sem eira nem beira

Quando saimos pra feira
notamos que o mar tinha virado
piscina