e minha grande obra será uma nota na parede do barraco
e minha grande performance será um movimento de ombros olhando um mico
adeus, humanidade e todas as suas balelas!
5 de abril de 2006
4 de abril de 2006
Livre?
Seria preciso arrancar esse rosto. Suar esse sangue. Puxar até as raízes todos esses pêlos. Explodir esse coração e demais órgãos.
Talvez fosse preciso moer esses ossos. Acho, porém, que não. Aos ossos cabe a sustentação. Então que aguentem o processo. Mas sim, seria preciso fazer esses ossos saírem às lágrimas. Limpá-los com esfregão e água de rio. Dá-los força, uma outra consistência.
Aos músculos cabe o maior esforço. Eles que são a liga desse corpo roto. Seria preciso esticá-los. Aquecê-los. Desfiá-los. Liquefazê-los numa massa disforme. Dá-los propriedades do mercúrio, da lama, da lava.
Por fim a consciência. Como bem lhe cabe, saberia se resguardar de todo processo, pairando em viagem astral ou em suspensão. Seria preciso assoprá-la como a um dente-de-leão. Espaná-la de suas sujeiras, picotá-la em mil pedacinhos, dar nela com uma marreta - fazer pó da consciência. Seria preciso desfragmentá-la e encontrar nela o que há de vital. E então, espalhá-la, disforme e pulsante, por todo o corpo.
Seria preciso fazer do corpo espírito e do espírito essas carnes, essa expressão sem nome. Seria preciso acabar com nomenclatura qualquer, cambiá-la por onomatopéias de ocasião. Seria mesmo preciso extinguir meu nome.
Talvez fosse preciso moer esses ossos. Acho, porém, que não. Aos ossos cabe a sustentação. Então que aguentem o processo. Mas sim, seria preciso fazer esses ossos saírem às lágrimas. Limpá-los com esfregão e água de rio. Dá-los força, uma outra consistência.
Aos músculos cabe o maior esforço. Eles que são a liga desse corpo roto. Seria preciso esticá-los. Aquecê-los. Desfiá-los. Liquefazê-los numa massa disforme. Dá-los propriedades do mercúrio, da lama, da lava.
Por fim a consciência. Como bem lhe cabe, saberia se resguardar de todo processo, pairando em viagem astral ou em suspensão. Seria preciso assoprá-la como a um dente-de-leão. Espaná-la de suas sujeiras, picotá-la em mil pedacinhos, dar nela com uma marreta - fazer pó da consciência. Seria preciso desfragmentá-la e encontrar nela o que há de vital. E então, espalhá-la, disforme e pulsante, por todo o corpo.
Seria preciso fazer do corpo espírito e do espírito essas carnes, essa expressão sem nome. Seria preciso acabar com nomenclatura qualquer, cambiá-la por onomatopéias de ocasião. Seria mesmo preciso extinguir meu nome.
3 de abril de 2006
Querida C,
Já era Outono?
O clima do mundo enlouquece, e se é difícil de senti-lo de dentro das cidades, mudar de habitação duma pra outra aumenta a dificuldade ainda mais - ainda mais que ele não confiava mais na sua sensação de "natural"; e numa cidade nova, como sentir o que já mudou? As pessoas são insuspeitas do que as cerca; as pessoas não tem uma sensibilidade confiável.
Queria escrever uma carta erótica. Na verdade, queria fazer amor, ali mesmo, sexo de um tipo completo. De um tipo que te torna diferente e cambaleante, bambo e feliz. Mas como ele parecia agora conseguir estar onde estava, a possibilidade de amar transcedentalmente alguém enquanto sozinho num apartamento era menos do que remota. Uma carta ele sempre poderia escrever.
Livre de quem o dissesse o que estudar, havia descoberto que podia ler vários livros ao mesmo tempo, como quem vai a diferentes aulas. A autonomia do seu próprio ensino o estava maravilhando. Toda nossa aprendizagem deveria ser como a de quem viaja por um país, pensava. E vai aonde quer, sobe os morros que conseguir, ou então mergulha em um lago; e pede indicações para os nativos - ou outros viajantes - que lhe parecerem mais simpáticos, mais interessantes.
Queria fazer de todos os seus estudos e descobertas uma coisa só. Deixar tudo vivo dentro de si e estar inteiro no que fizesse, levando tudo isso consigo não como quem carrega malas, mas como a própria pele; como a rede neural quase imaterial que tem todas as possibilidades de sensações. Não seria um especialista em nada além do momento. Não fugiria em protocolos, não seria dominado pelo sujeito social. Não venderia sua alma, nem como um discurso para salvar-se.
Tudo o que faria seria fazer arte. E sua única segurança seria a generosidade de estar aberto. O trabalho era não se permitir criar fôrma qualquer pro seu mundo. Não queria vivê-lo antes mesmo de entrar em contato com ele. Já tinha isso acontecido tanto.
Contato. Queria uma vida de contatos, encontros, acontecimentos. Uma vida que volta-e-meia o fizesse de pião. Não se importaria de ser rodopiante peão da vida.
Queria queimar as coxas brancas no Sol. Viver numa montanha. Abraçar a Terra com suas coisas e gentes que o viessem a visitar - sempre de surpresa.
Mergulhar no mar ou sentir a brisa quando precisasse de força. Ou quando estivesse inexplicavelmente feliz. Dançar para a Lua, ver ela brilhar a Terra de azul. Enxergar no escuro - sua mente o mais amorfa quanto possível, a percepção oscilante - harmonia de um espírito mundano.
Conjurava o Universo enquanto escrevia, sozinho, dentro do apartamento.
Do mundo, mal sabia.
O clima do mundo enlouquece, e se é difícil de senti-lo de dentro das cidades, mudar de habitação duma pra outra aumenta a dificuldade ainda mais - ainda mais que ele não confiava mais na sua sensação de "natural"; e numa cidade nova, como sentir o que já mudou? As pessoas são insuspeitas do que as cerca; as pessoas não tem uma sensibilidade confiável.
Queria escrever uma carta erótica. Na verdade, queria fazer amor, ali mesmo, sexo de um tipo completo. De um tipo que te torna diferente e cambaleante, bambo e feliz. Mas como ele parecia agora conseguir estar onde estava, a possibilidade de amar transcedentalmente alguém enquanto sozinho num apartamento era menos do que remota. Uma carta ele sempre poderia escrever.
Livre de quem o dissesse o que estudar, havia descoberto que podia ler vários livros ao mesmo tempo, como quem vai a diferentes aulas. A autonomia do seu próprio ensino o estava maravilhando. Toda nossa aprendizagem deveria ser como a de quem viaja por um país, pensava. E vai aonde quer, sobe os morros que conseguir, ou então mergulha em um lago; e pede indicações para os nativos - ou outros viajantes - que lhe parecerem mais simpáticos, mais interessantes.
Queria fazer de todos os seus estudos e descobertas uma coisa só. Deixar tudo vivo dentro de si e estar inteiro no que fizesse, levando tudo isso consigo não como quem carrega malas, mas como a própria pele; como a rede neural quase imaterial que tem todas as possibilidades de sensações. Não seria um especialista em nada além do momento. Não fugiria em protocolos, não seria dominado pelo sujeito social. Não venderia sua alma, nem como um discurso para salvar-se.
Tudo o que faria seria fazer arte. E sua única segurança seria a generosidade de estar aberto. O trabalho era não se permitir criar fôrma qualquer pro seu mundo. Não queria vivê-lo antes mesmo de entrar em contato com ele. Já tinha isso acontecido tanto.
Contato. Queria uma vida de contatos, encontros, acontecimentos. Uma vida que volta-e-meia o fizesse de pião. Não se importaria de ser rodopiante peão da vida.
Queria queimar as coxas brancas no Sol. Viver numa montanha. Abraçar a Terra com suas coisas e gentes que o viessem a visitar - sempre de surpresa.
Mergulhar no mar ou sentir a brisa quando precisasse de força. Ou quando estivesse inexplicavelmente feliz. Dançar para a Lua, ver ela brilhar a Terra de azul. Enxergar no escuro - sua mente o mais amorfa quanto possível, a percepção oscilante - harmonia de um espírito mundano.
Conjurava o Universo enquanto escrevia, sozinho, dentro do apartamento.
Do mundo, mal sabia.
2 de abril de 2006
Ordenamento
Vida
faz-se
num encaixe
Ache
Já baste
pra ti
até a morte
faz-se
num encaixe
Ache
Já baste
pra ti
até a morte
1 de abril de 2006
Armadura
Cravei ferro
na frente do peito
em placas
Se bala não passa
teu olhar não era
Como é que gela
então?
Quando é que aquece?
Já faz frio
suficiente
dentro
na frente do peito
em placas
Se bala não passa
teu olhar não era
Como é que gela
então?
Quando é que aquece?
Já faz frio
suficiente
dentro
26 de março de 2006
TAKEOVER
é isso. estou dando um takeover em mim mesmo.
como esse sítio não estava rolando como uma ação política, porque simplesmente não estava rolando, estou o tornando uma ação política de mim mesmo.
tenho tido muitas coisas pra contar pras almas queridas. vou usar esse espaço mesmo, que me é também tão querido. e chega do anonimato, persona-activa.
muito obrigado a todas as pessoas que colaboraram ativamente com o fraguExperimentos. colocaram alcunhas aí e mandaram ver.
é pra dar movimento a isso, e aí vai ser muito bom contar com vocês ainda juntos.
a página deixa de ser um campo de ação quase estudado pra ser uma parte de mim. boca, pele, ouvidos.
é isso. o que tenho pra dizer-lhes agora. mas a gente volta (eu e minhas multiplicidades).
beijo!
como esse sítio não estava rolando como uma ação política, porque simplesmente não estava rolando, estou o tornando uma ação política de mim mesmo.
tenho tido muitas coisas pra contar pras almas queridas. vou usar esse espaço mesmo, que me é também tão querido. e chega do anonimato, persona-activa.
muito obrigado a todas as pessoas que colaboraram ativamente com o fraguExperimentos. colocaram alcunhas aí e mandaram ver.
é pra dar movimento a isso, e aí vai ser muito bom contar com vocês ainda juntos.
a página deixa de ser um campo de ação quase estudado pra ser uma parte de mim. boca, pele, ouvidos.
é isso. o que tenho pra dizer-lhes agora. mas a gente volta (eu e minhas multiplicidades).
beijo!
19 de fevereiro de 2006
Show dos Stones
praia de Copacabana. 1 milhão e quinhentas mil pessoas juntas, olhando tevê.
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