8 de abril de 2011

Escorre
de meu corpo
morre

Sai por saliva
pelo suor
pelas
ideias

Escorre
fica como poça

Sigo

De soslaio
a poça
me
reflete

7 de abril de 2011

"Uma imagem narrativa"

Escrever como quem tira fotos. Numa tentativa vã de capturar tudo de uma cena, que pela repetição da espectativa de captura frustrada, torna-se esperança. Que recua da documentação da verdade para a composição do olhar, e depois recua um tanto mais. E, dessa subtração esperançosa, pode paradoxalmente trazer tanto mais de vida, não capturada, mas liberta e sempre pulsante.

Assim, bater fotos como quem escreve. E igualmente entender que a descrição extensiva mais facilmente torna-se enfadonha do que capaz de transparecer a vida que se tenta alcançar quando da vontade de escrever. E que, mesmo pela via descritiva, conseguimos chegar é a contornos: e tanto melhor nos entregarmos a eles.

O mais cedo que paremos de escrever e comecemos a desenhar com palavras; o mais cedo que paremos de tentar capturar imagens, mas poetar com elas; tanto melhor para que o espírito dance.

O título desse post foi retirado da fala de 
a respeito do fotógrafo
Luis Carlos Felizardo, o Feliz,
durante a exposição-encontro 
5º FestFotoPoa -
agorinha há pouco.

6 de abril de 2011

4 de abril de 2011

O único lugar em que
quero estar
é no presente.

Mas é longe. Muito longe.

São séculos criando montanhas
de passado
e de futuro.

2 de abril de 2011

Autômato

Danço uma dança
de passos rápidos
certos

Danço uma dança
marcada

Se toca música
não sei
não canto:
conto

Danço uma dança
não dançada

Deixei meu corpo.
Virei máquina.

29 de março de 2011

Urbanidade

Para Pedro Lunaris

Saio para a rua e encontro o campo:
As avenidas sem calçadas
São largas como o olhar e pavimentadas
De verde vivo.

Os bancos de pedra são de pedra
E os bancos de madeira,
De madeira, enraizados e abanando
Aos passantes e à brisa brejeira.

Uma perdiz acha meu olhar:
Bom-dia!
Bom-dia!
Por isso que jamais poderia caçar...

O cachorro alonga meu olfato,
Cheirando a hora do chimarrão e a hora do sol:
Bom-dia!
Bom-dia... ─ diz ao sol
Se espreguiçando, com voz emprestada não sei de onde...

O gato passa por entre as minhas pernas,
Diz seu bom-dia com os pelos.
Bom-dia! ─ respondo-lhe ─.
Vejo-o entrar no porão da casa
Para se despedir da noite.
É o único da casa que se lembra disso.
Por isso que a noite nunca é ingrata...

O porco se limpa na lama e me diz
Bom-dia!
Bom-dia!
Trocamos vozes agora, depois
Que provei que não há mais
Presunto aqui em casa...
Fizemos as pazes e agora a cumprimos
Nos cumprimentos!

Até a casa me diz bom-dia, com voz
De chaleira!
A janela do meu quarto
Emoldura um retrato feliz,
Para dentro e para fora.
A cortina pisca para mim, agora.

À noite, no escuro, retribuirei com juros.
Ela sabe e sorri mais ainda, acariciando a janela.

Toda minha fazenda me cumprimenta, agora
Que aprendi o que significa urbanidade.

Entro no carro. E enquanto dirijo até o trabalho,
Pergunto-me o que posso fazer
Para que a urbanidade de hoje
Volte a ser como era antes...

Poema de André Castro